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EPIDEMIOLOGIA
VETERINÁRIA NA EXTENSÃO RURAL
DE BOVINOS DE LEITE
Dra. Masaio Mizuno Ishizuka -
Professora Titular Emérita da FMVZ-USP e Consultora da CATI
Med. Vet. Marianne de Oliveira Silva
rmarianne@cati.sp.gov.br
A
definição mais usada de Epidemiologia é a ciência
que estuda a ocorrência de doenças em coletividades considerando
os indivíduos doentes e não doentes e dos meios para o
seu controle e, portanto, é o estudo dos padrões de doença.
A Epidemiologia mostra ao profissional a atitude que deve tomar diante
da ocorrência de uma doença em coletividade através
procedimentos de diagnóstico e de intervenção próprias.
A
epidemiologia apresenta RELAÇÃO hierárquica com
outras disciplinas diagnósticas como a clínica que estuda
um animal doente; a patologia que interpreta lesões e a epidemiologia
que investiga populações descrevendo a ocorrência
de doenças, calculando a freqüência e a distribuição
(espacial e temporal). São disciplinas complementares e seqüenciais
pela atuação diferentes níveis para delinear soluções
de problemas em populações de animais embora nem sempre
as 3 sejam necessárias (Schwabe et al, 1977). A epidemiologia
ocupa o nível mais alto nesta hierarquia dominando conhecimentos
das outras, que em conjunto permite ao epidemiologista contar com instrumentos
para a descrição de doenças em populações,
investigar as causas e habilitando-o para “ver tanto as árvores
como a madeira” porque a abordagem é ampla e não
especializada e a Epidemiologia evita o perigo da especialização.
Médicos Veterinários são “guerreiros”
que se esforçam na conquista da doença e esta estratégia
sugere um conflito de natureza militar, pois doenças em populações
são combatidas com estratégia e táticas militares.
OBJETIVOS
DA EPIDEMIOLOGIA
1. Determinação
da origem de uma doença (rastreamento);
2.Investigação
e controle de doenças de etiologia inicialmente desconhecida;
3. Obtenção de informações
sobre a ecologia e história natural de doenças;
4. Planejamento e monitoração de programa
de saúde animal e de medicina veterinária preventiva;
5. Avaliação econômica e análise
de custo e benefícios de programas alternativos de saúde
animal.
CADEIA
EPIDEMIOLÓGICA
A ocorrência
de uma doença transmissível numa população
consiste em uma sucessão de eventos que é denominada cadeia
epidemiológica e constituída de 5 elos:
1- Fonte de infecção (FI): É um
hospedeiro vertebrado que alberga um determinado agente etiológico
e pode eliminar tal agente de seu organismo.
2- Via de eliminação (VE): É o
acesso do parasito para o meio exterior.
3- Via de transmissão (VT): é o meio
ou veículo que o agente utiliza para ganhar um novo hospedeiro.
4- Porta de entrada (PE): é o acesso do parasito
no organismo de um novo hospedeiro. É a via de penetração
para garantir a propagação do agente na população.
5- Suscetível (S): novo organismo vertebrado
passível de ser infectado.
COMUNICANTE
OU CONTATO: não está intimamente relacionado
à cadeia. É um hospedeiro suscetível que esteve
exposto ao risco de infecção, mas que na realidade não
se sabe, de antemão, se foi ou não infectado e, portanto,
não se pode afirmar se é fonte de infecção
ou se continua como susceptível e há que se aguardar por
um período equivalente ao período de incubação
da doença.
1-
MODALIDADES DE FONTE DE INFECÇÃO:
a-DOENTE:
a1- Doente Típico: apresentam sintomas característicos
da doença. Ex.
vaca que abortou em decorrência da brucelose ou campilobacteriose
ou tricomonose ou leptospirose, bezerro com colibacilose.
a2- Doente Atípico: os sintomas não são
característicos por causa da severidade ou benignidade da doença.
Ex. bovino com sinais graves de manqueira.
a3- Doente em Fase Prodrômica: o animal está
doente, mas os sintomas não são claros. Ex. bovinos na
fase inicial da febre aftosa pode manifestar apenas febre ou diminuição
apetite ou dificuldade na apreensão de alimento.
b-
PORTADOR: animal sem manifestação clínica
da doença.
b1-
Portador são: É um indivíduo que não
teve a doença, não tem e não terá em decorrência
de imunidade. Ex: touro na campilobacteriose, tricomonose. Bovino vacinado
contra febre aftosa e que tenha sido exposto ao vírus da febre
aftosa que causa infecção apenas. Bovinos adultos infectados
com E. coli, S. dublin.
b2- Portador em Incubação: É um
indivíduo que não teve a doença, não tem
mas, que manifestará uma vez superado o período de incubação
da doença. Ex. babesiose, anaplasmose, febre aftosa.
b3- Portador Convalescente: É um indivíduo
que teve a doença , não tem mais, mas, elimina o agente
da doença. ex. helmintoses, babesiose, anaplasmose, enterites
bacterianas (colibacilose, salmonelose)
c-
RESERVATÓRIO:
a- Stritu sensu: É um outro organismo vertebrado
que não pertence à espécie (animal) considerada
como principal na qual o parasito se instala e é eliminado permitindo
a perpetuação do mesmo na natureza. Morcego para o bovino
no caso da raiva, o homem para a vaca no caso de S. aureus,
agente de mastite, bovino para o homem no caso da tuberculose por M.
bovis.
b- Latu sensu: considera todo e qualquer hospedeiro
vertebrado ou não e até mesmo o meio ambiente desde que
ofereçam condições de sobrevivência ao agente
etiológico.
2-
MODALIDADES DE VIAS DE ELIMINAÇÃO:
a.
Secreção oro – nasal. Ex. agentes de doenças
respiratórias ou da mucosa oral para agentes da febre aftosa,micoplasmose,
pasteurelose, IBR.
b.
Fezes: Ex. agentes de helmintoses, de coccidioses, de enterites.
c. Sangue: Ex A. marginale, B. bigemina, vírus
da Leucose bovina,
d. Urina: agentes de doença do aparelho urinário
ou aqueles que atravessa a barreia renal durante a septicemia. Ex. M.
bovis, Leptospiras.
e. Leite: agentes de mastites ou daqueles que atravessam
a glândula mamária durante septicemia (M. bovis, B. abortus).
f. Descargas purulentas: ex. agentes de dermatites
purulentas como furúnculos, peste dos pulmões.
g. Descamações cutâneas: varíola
bovina, pseudovaríola bovina.
3-
MODALIDADES DE VIAS DE TRANSMISSÃO:
Existem
diferentes modalidades de vias de transmissão.
a.
CONTAGIO DIRETO: agentes pouco ou nada resistentes às
condições do meio ambiente. Ex. raiva (mordedura), febre
aftosa (lambedura), campilobacteriose e tricomonose (coito).
b. CONTAGIO INDIRETO: há a interposição
de um veículo inanimado. Este contágio se processa por:
fômites (ex. mastites), ar (agentes de doenças respiratórias
como micoplasmoses, pasteureloses, IBR), poeiras (ex M. bovis), gotículas
de FLÜGGE (agentes de doenças que provocam tosse) e núcleos
de Wells (agentes de doenças que provocam espirro).
c. VETORES: São usualmente representados por
artrópodes. Podem ser Mecânico e Biológico. São
os tipos de vetores: Mecânico (ex. Musca domestica) e Biológico
(ex. B. microplus na babesiose e anaplasmose, mosquito palha nas leishmanioses).
d. HOSPEDEIRO INTERCALADO: realização
de uma fase do ciclo biológico do parasito no interior de seu
organismo. Ex. caramujo para os agentes de Fasciolose e Schistosomose.
e. ALIMENTOS: transmissão é longa a trajetória
do parasito desde a FI até atingir o suscetível. Ex. C.
bovis, M. bovis, Toxoplasma gondii, Salmonella enteritidis, S. typhimuriun.
f. ÁGUA: Dentre os alimentos é a água
que está mais sujeita à contaminação. Ex.
agentes de enterites, verminoses, cocidioses.
g. SOLO: casos em que o agente apresenta elevada resistência
às condições do meio ambiente ou apresenta formas
de resistência. Ex. esporos de Clostidios, B. anthracis, ovos
ou larvas de helmintos.
h. PRODUTOS BIOLÓGICOS: podem carrear agentes
de doenças principalmente se forem produzidos em animais acidentalmente
infectados ou cultivos celulares. Ex. vacinas, medicamentos etc.
i. PRODUTOS DE REPRODUÇÃO: sêmen
e embriões. Ex. Campilobacter foetus, Trichomonas foetus.
j. TRANSMISSÃO TRANSPLACENTÁRIA OU INTRAUTERINA:
o feto é capaz de proteger-se contra infecções,
mas é menos capaz que o adulto, porque embora não seja
totalmente indefeso, seu sistema imune não estão com sua
total capacidade de funcionamento e conseqüentemente vários
processos que são inaparentes ou brandos para a mãe podem
ser severos ou letais no feto. Ex. brucelose bovina, leptospirose bovina.
4-
MODALIDADES DE PORTAS DE ENTRADA:
As
mais importantes portas de entrada:
a. Mucosa do aparelho respiratório (nasal).
Ex. agentes de doenças respiratórias.
b. Mucosa do aparelho digestivo (oral). Ex. agentes
de estomatites, verminoses, enterites.
c. Pele, Ex. anaplasmose, babesiose, leucose bovina,
dermatites purulentas, mosca do chifre.
d. Cicatriz umbilical. Ex. Tétano em bezerros.
e. Canal do teto. Ex. agentes de mastites por enterobactérias,
S. aureus, S. agalactiae, S. dysgalatiae, S uberis.
f. Ferimentos. Ex. tétano, infecções
piogênicas.
g. Mucosa conjuntiva. Ex. agentes de conjuntivites
como Moraxella bovis, cepa B19 no homem.
5
- MEDIDAS PROFILÁTICAS DE CARÁTER GERAL APLICADA ÀS
FI:
a.
Sacrifício
b.
Tratamento
c.
Isolamento
B
- MEDIDAS DE PROFILAXIA RELATIVAS ÀS VIAS DE TRANSMISSÃO:
Contagio
direto: Em se tratando de contágio direto, a VT é
virtual e, portanto, não existem medidas pertinentes.
Contagio
indireto: as possibilidades de atuação serão
tanto maiores quanto maiores forem às relações,
no tempo e no espaço, entre as FI e o Suscetível, i.e.,
quanto mais tempo o agente permanecer no meio ambiente.
Fômites:
deve-se dispensar especial atenção a este elemento procedendo-se
à limpeza e desinfecção que objetivam reduzir e
até eliminar a contaminação.
Aerógena: radiação ultravioleta, desinfecção
do ar por nebulização de desinfetantes, ventilação
adequada, evitar varredura a seco.
VETORES:
1. Medidas defensivas ou preventivas: visam evitar
a entrada de vetores nas habitações pelo uso de telas
em janelas, portas, aberturas ou outras medidas de caráter mais
individual, medidas de saneamento pelo destino adequado a excretas,
lixo, resíduos, eliminar coleções de água
que podem ser criadouros de insetos.
2. Medidas ofensivas ou de controle: visa diminuir
a população de vetores pela aplicação de
medidas efetivas de destruição por meios físicos
(iscas) ou limitar ou extinguir pelo uso criterioso de substancias químicas
(inseticidas).
HOSPEDEIRO
INTERCALADO:
As possibilidades são:
1) aplicação de medidas para evitar a
contaminação do solo que é o habitat do hospedeiro
intercalado;
2) atuação sobre aquelas formas do parasito que
penetram no hospedeiro intercalado;
3) e/ou atuando sobre o próprio hospedeiro intercalado
destruindo-o.
ALIMENTO:
1. O alimento pode estar contaminado na sua origem.
Permite excluir, durante Inspeção de Produtos de Origem
Animal, tais alimentos antes de serem enviados para consumo humano e
que se encontram contaminados com agentes macroscópicos.
2. O alimento pode ser contaminado durante o processo
de manipulação pelo contato com ar, fômites (ganchos,
facas, utensílios, vasilhames), vetores mecânicos, roedores
e o próprio homem que manipula os alimentos e que pode ser portador
de processos supurativos ou albergar no trato respiratório superior
ou gastrintestinal os agentes causadores de toxiinfeção
alimentar. Aplicam-se medidas de higiene pessoal dos trabalhadores,
limpeza, lavagem e desinfecção de objetos, equipamentos
e instalações.
ÁGUA:
A profilaxia da água se faz desde sua captação
até a armazenagem podendo incluir tratamento ou não.
SOLO:
Apresenta
maior importância para os parasitos que necessitam cumprir fase
de seu ciclo evolutivo no meio ambiente ou para outros que apresentam
formas de resistência. O agente pode penetrar no organismo do
suscetível passivamente ou ativamente. Ex. rotação
de pastagens, destino de excretas, destino de cadáveres.
C
- MEDIDAS DE PROFILAXIA RELATIVA AOS SUSCETÍVEIS:
Medidas
específicas:
Vacinação: medida profilática
específica que objetiva proteger os animais através da
imunidade pelo uso de imunógenos (vacina) ou soros.
Medidas
Inespecíficas: correta alimentação, instalações
adequadas, criação de animais separados quanto espécie,
idade e tipo de exploração.
D
- MEDIDAS DE PROFILAXIA APLICÁVEIS AOS COMUNICANTES OU CONTATO:
1-
Sacrifício: é a medida mais drástica e
visa proteger os suscetíveis. Ex. febre aftosa em focos.
2-
Quarentena: O comunicante é isolado por um período
de tempo equivalente ao período máximo de incubação
conhecido
da doença. Ex. anemias recém adquiridos ou recém
importados.
3
- Proteção dos Comunicantes:
a.Profilaxia
medicamentosa ou quimioprofilaxia
b.Imunização: Poderá ser ativa,
passiva ou combinada.
Referência
Bibliográfica:
1
.Masaio Mizuno Ishizuka – Apostila - A epidemiologia aplicada
a Defesa Animal 2003.
2.Côrtes, JA – Epidemiologia – Conceitos e
Princípios fundamentais. Ed Varela, 1993. 227p.
3.Martin, SW; Meek, AH; Willeberg, P – Veterinary Epidemiology
– Principles and Methods. Ed Iowa State Univ Press. 1987.
342p.
4.Thrusfield, M – Veterinary Epidemiology. Ed Butterworths.
1986. 280p.
5.Tizard, IR – Imunologia Veterinária – Uma
introdução. Ed Roca, 2002. 532p.

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