02/01/2019 08:00

Com seus poucos mais de cinco mil habitantes, Iporanga, que na língua tupi significa Rio Bonito, é um município localizado no coração da Mata Atlântica, junto às margens do Rio Ribeira de Iguape e na foz do Ribeirão Iporanga, tem sua fundação datada como arraial no ano de 1755. Cercada por belezas naturais e ostentando o título de município com o maior número de cavernas no Brasil, é conhecida como a “Capital das Cavernas” e, em 1999, foi reconhecida como Patrimônio Natural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco).

É nesse cenário que a Casa da Agricultura local, fundada na década de 1960, desenvolve seu trabalho de levar tecnologia e aprimorar a agropecuária em harmonia com o meio ambiente, respeitando as tradições culturais e sociais de seu público-alvo: os agricultores familiares e as comunidades quilombolas.

“Em nosso município, a maioria dos agricultores é familiar, ou seja, possuem menos de quatro módulos fiscais, sendo a maior parte quilombolas, mas há muitos produtores que não são”, informa Thiago Ramon da Silva Lisboa, zootecnista responsável pela unidade, que é conveniado pela Prefeitura, por meio do Sistema Estadual Integrado de Agricultura e Abastecimento (Seiaa).

Análises de solo; projetos para acesso ao crédito rural; ajuste na logística de compra de insumos e escoamento de produção; emissão de Declarações de Aptidão ao Pronaf (DAPs) e de Conformidade a Atividade Agropecuária (DCAA); incentivo ao preenchimento do Cadastro Ambiental Rural (CAR); venda de sementes; são alguns dos serviços prestados pela Casa da Agricultura. De acordo com a última atualização do Levantamento Censitário das Unidades de Produção Agropecuária (LUPA), o município possui 263 propriedades, onde as principais atividades são o cultivo de palmito pupunha, a bananicultura, a criação de bubalinos e bovinos de leite e corte, a olericultura e a extração de resina de pinus. “Com exceção da resina de pinus, cuja maioria da área pertence a um único produtor, mas que é repassada a meeiros, todas as outras atividades são conduzidas por pequenos agricultores. Por isso temos uma grande preocupação em levar a eles novas tecnologias, crédito rural e ferramentas de gestão, para que, além de produzir em quantidade e com qualidade, possam gerir as propriedades de maneira profissional para que tenham renda e emprego por meio da agropecuária e, assim, permanecer no campo, onde estão as suas raízes, principalmente os quilombolas”, explica Thiago, que conhece bem a realidade das comunidades locais, pois também é agricultor e quilombola.

“Estamos investindo muito em ações para fortalecer as cadeias produtivas de bubalinos leiteiros e do palmito pupunha, pois, atualmente, são as mais rentáveis para os produtores, envolvendo um número expressivo de mão de obra familiar. Outro ponto importante no nosso trabalho  é o acompanhamento do Projeto Microbacias II junto às comunidades quilombolas, que tem feito uma transformação social e econômica nessas comunidades e nos  proporcionado uma grata satisfação como extensionistas de coração que somos”,  complementa Rivaldo Maciel da Silva, oficial de apoio agropecuário da CATI, que trabalha na unidade há muitos anos.

Eduardo Antônio Sodrizeieski, conhecido como Mamute, diretor da CATI Regional Registro, à qual a Casa da Agricultura é ligada, reconhece a atuação dos técnicos locais em sintonia com os assistentes da Regional, como a mola propulsora do desenvolvimento da agropecuária no município. “O trabalho da Casa da Agricultura vai além das ações de cunho técnico, pois, por conta do nosso público-alvo diversificado e que está inserido em uma região diferenciada do ponto de vista ambiental, se fez necessária uma atuação extensionista abrangente, com as famílias e as comunidades no centro do trabalho, o que a Casa da Agricultura tem feito muito bem”, avalia o diretor, que fala com conhecimento de causa, pois, por muitos anos, foi extensionista da unidade.

Para o prefeito municipal de Iporanga, que tem a economia baseada na agropecuária e no turismo de base ecológica,  Valmir da Silva, a unidade é um centro de referência no atendimento aos produtores rurais. “O trabalho da Casa da Agricultura é muito importante, principalmente para os pequenos produtores, que, além de apoio técnico, têm acesso à tecnologia e conhecimento nas mais diversas atividades. O convênio que mantemos com o governo do Estado, além de proporcionar a complementação do quadro, possibilita que a Casa da Agricultura tenha um carro e um prédio para exercer suas atividades e seus projetos com qualidade”.

 

FORTALECIMENTO DA AGRICULTURA FAMILIAR

Produtores trocam o boi pelo búfalo, investem no cultivo do pupunha com apoio da Casa da Agricultura e conseguem permanecer na propriedade

Luiz Augusto de Lima e Dionatan Uilians Delfino têm respectivamente 34 e 30 anos, sendo ambos filhos de produtores que enxergaram na propriedade rural o trabalho que desejavam  para o resto da vida, apesar das dificuldades inerentes à atividade. Mas nem sempre foi assim; até pouco tempo atrás, Luis era carreteiro na cidade de Santos, tendo voltado para o sítio após ver os bons resultados trazidos pelo comércio de leite de búfala, animal que tem se destacado como melhor opção de criação na região, por suas características mais robustas e de manejo. Ao retornar para o seu município, em busca de uma vida com mais qualidade, encontrou na Casa da Agricultura o apoio que precisava para se manter na atividade rural com renda. Atualmente, ele é criador de búfala leiteira e agricultor, tendo como principal atividade o plantio de pupunha, que soma 10 mil pés cultivados em seu sítio, de 48 hectares. Já Dionatan sempre trabalhou com gado de leite, mas pensou em desistir da atividade, por conta dos altos custos e da baixa rentabilidade.

Atualmente, os dois produtores se tornaram sócios na produção de leite de búfula e enaltecem o trabalho da Casa da Agricultura na sua tomada de decisão de continuar na propriedade, garantindo a sucessão no campo, processo cada vez mais difícil. “O apoio dos técnicos foi fundamental para que eu pudesse fazer a transição da criação de bovino para bubalino, o que só trouxe ganhos e me fez desistir de deixar o sítio. Os búfalos são mais rústicos, adaptáveis na nossa região, e o leite de búfula tem comercialização certa nos laticínios. Além da orientação técnica, foram os técnicos da Casa da Agricultura que fizeram o projeto para que eu pudesse conseguir o financiamento para adquirir o plantel, que hoje conta com 30 animais e resulta em uma produção diária de 120 litros, dos que estão em lactação”, conta Dionatan, ressaltando que, por conta dos bons resultados, tem conseguido “tocar” o sítio herdado do pai e já se alegra com o interesse do filho em ser produtor no futuro.
 

 

COMUNIDADES QUILOMBOLAS

Microbacias II fortaleceu o trabalho de extensão rural em parceria, com geração de renda e preservação da identidade cultural

Ao todo, sete comunidades são atendidas pela Casa da Agricultura: Praia Grande, Bombas,  Piririca, Porto Velho, Pilões, Maria Rosa e Nhunguara, abrangendo cerca de 300 famílias. “O trabalho é realizado em parceria com a Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), tanto na assistência técnica como nos projetos do Microbacias II, os quais foram elaborados e acompanhados pela equipe da CATI Regional Registro e que têm sido  imprescindíveis no desenvolvimento das comunidades envolvidas (Bombas e Piririca não participam do Projeto). Desde o início das ações do Projeto, observamos uma melhora  significativa na qualidade de vida dos quilombolas, pois o mecanismo de escolha, no qual comunidade fala o que precisa e decide o que será adquirido, garante que as suas necessidades sejam atendidas de acordo com sua realidade”, avalia Thiago, acrescentando: “Além disso, a união de esforços e trabalhos afins, potencializa os resultados que têm trazido desenvolvimento para os agricultores quilombolas, reforçando seu protagonismo como produtores”.

Como quilombola, Thiago fala de seu orgulho por desempenhar o papel de extensionista rural junto à sua comunidade e às demais. “O que me deixa muito feliz é o fato de que com os avanços conquistados pelas comunidades, cada dia mais os jovens estão tendo oportunidade de permanecer no campo. Também tem acontecido o retorno daqueles que saíram para buscar um caminho melhor, e agora estão vendo que esse lugar pode ser alcançado com o trabalho na comunidade. E o Microbacias II tem tido um papel marcante nesse contexto, pois as ações estão sendo materializadas em equipamentos, máquinas agrícolas, infraestrutura logística e de transporte, entre outras coisas, que, além de impulsionar a agropecuária, está fortalecendo as atividades culturais e de turismo, e melhorando a produção e a  comercialização dos produtos, mas principalmente a qualidade de vida das comunidades  inseridas no Projeto”.
 

 

ASSOCIAÇÃO REMANESCENTE DE QUILOMBO PORTO DOS PILÕES

Sentado orgulhoso em frente ao trator adquirido com recursos do Microbacias II, o seu Pedro Rodrigues da Cunha, um dos moradores mais velhos da comunidade de Pilões, relembra os tempos difíceis em que, para se cultivar a terra, os integrantes da comunidade tinham apenas a força do braço como instrumento e algumas poucas ferramentas rudimentares. “Para plantar as sementes de milho, arroz e feijão, a gente usava a “saracoca” (um pedaço de pau afiado) para abrir os buracos. Para conseguir ir até a cidade mais próxima, Iporanga, distante cerca de 30 quilômetros, levávamos dois dias, inclusive para vender o pouco que sobrava das nossas roças que eram, praticamente, apenas de subsistência. Era um tempo de dificuldades“, conta o produtor, que junto com outros membros da Associação Remanescente de Quilombo do Bairro Pilões celebra as conquistas as quais estão transformando a vida das mais de 40 famílias da comunidade, que têm na agricultura (olericultura e palmito pupunha) a principal fonte de subsistência e renda.

E essa transformação, segundo José Guia dos Santos, outro membro da comunidade, teve início com os programas de compras governamentais, que ampliaram o mercado para comercialização de seus produtos, e culminou com a chegada do Projeto Microbacias II. “Quando acessamos o Microbacias II, com o apoio da CATI e do Itesp, e recebemos recursos para ampliar e diversificar as fontes de renda da nossa comunidade, que realmente tivemos condições de sonhar em ter uma melhor qualidade de vida e renda para nos mantermos na terra dos nossos ancestrais, que para mim é um pedaço do céu, apesar de todas as dificuldades”, salienta o produtor, conhecido como Zeca.

João Benedito Rocha, também produtor na comunidade, está entusiasmado. “Os implementos e o trator que adquirimos pelo Microbacias II nos ajudam em tudo, facilitam do plantio à colheita, incluindo o transporte, pois contamos com uma carreta; não precisamos mais depender de terceiros ou da prefeitura, e não perdemos mais as época de plantio e de entrega, pois podemos levar o nosso produto até a balsa para ser transportado, mesmo em período de chuva, o que não acontecia antes. Há algum tempo começamos a plantar uma pequena área de palmito pupunha e vimos que é uma excelente alternativa. Por isso, com os recursos do Projeto, adquirimos 130 mil mudas de pupunha que ampliarão muito a nossa produção e, consequentemente, a nossa renda”. Zeca complementa: “Com o Microbacias II, vimos que agregar valor à produção é o melhor para aumentar a renda, então já estamos sonhando em montar uma fábrica para industrializar o palmito, que hoje vendemos in natura para fábricas locais”.
 

 

ASSOCIAÇÃO REMANESCENTE DE QUILOMBO PRAIA GRANDE

Situada às margens do Rio Ribeira de Iguape, a comunidade Praia Grande é composta por cerca de 20 famílias, que vivem da agricultura de subsistência e do cultivo de palmito pupunha. “Porém, por sua localização e tradições, o turismo se apresenta como uma nova alternativa de renda para a comunidade. Por isso, o investimento dos recursos de mais de R$ 400 mil obtidos, pelo Projeto Microbacias II, na construção de um centro comunitário e receptivo para atender visitantes, foi uma das escolhas dos quilombolas”, informa Thiago, zootecnista da Casa da Agricultura.

A chegada dos materiais para a construção do sonhado centro comunitário foi motivo de festa para a comunidade, mas também de muito trabalho. Com acesso feito apenas por barcos, o “grupo do arrebenta” (formado por integrantes da comunidade, a maioria de jovens), fez todo o transporte das pedras, areia e madeira (que chegaram de caminhonete até a parte que a estrada permite) em cestos carregados nas costas, até os barcos. “Contratamos uma empresa especializada para a construção, mas nos empenhamos na travessia dos materiais e no apoio geral. Saímos cedo de casa, sendo que muitos moram há muitos quilômetros do lugar onde o material é descarregado e têm que vir a pé, no meio da mata, depois de fazer o seu trabalho na roça (as principais atividades cultivadas são a mandioca, o feijão e hortaliças). Mas vale a pena todo esforço, pois não podemos desperdiçar a oportunidade que tivemos do Microbacias II”, conta João Luis de Moura.

Sobre os barcos, o seu Benedito Messias Freitas, “comandante” oficial da embarcação adquirida com recursos do Projeto, fala de como a vida melhorou. “Antigamente, era muito difícil o transporte aqui, pois na maioria das vezes era feito em pequenas canoas movidas a remo ou vara; levávamos horas para chegar até o local de pegar outro transporte para ir à cidade, em um trajeto inseguro. Esse barco e os motores que compramos com os recursos do Microbacias II nos ajudam em tudo, tanto para levar os aposentados para receber quanto os doentes para fazer tratamento e trazer as compras. É uma benção!”.

 Em frente à pequena igreja que faz parte do núcleo central da comunidade e, atualmente, é, além de espaço religioso, o local para festas e reuniões, dona Iracema Pereira de Almeida, presidente da Associação, fala sobre o múltiplo uso do galpão. “Apesar de todas as dificuldades, que são muitas, eu tenho profundo orgulho de viver nessa terra e sonho em deixá-la para os mais jovens cuidarem, cultivarem e viverem nela. Nesse centro, além de concentrar as nossas atividades, também poderemos receber as pessoas que vem, principalmente para nossas festas religiosas, gerando renda; teremos um espaço para cozinha e também será utilizado como sede da Associação. Não vejo a hora de ele ficar pronto; rezo a Deus todos os dias”.
 

 

Cleusa Pinheiro - Jornalista - Centro de Comunicação Rural (Cecor/CATI)

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