17/04/2017 08:00

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Desde que teve início, o Projeto Integra SP – Radge, voltado à Recuperação de Áreas Degradadas por Grandes Erosões (Radge), tem mudado a vida de proprietários que antes conviviam com a perda da capacidade de produção de suas terras, desvalorização patrimonial e riscos de multas por danos ambientais. Sensível a isso, o governo do Estado passou a destinar uma verba, a princípio de R$ 10 mil e, a partir do ano passado, de R$ 15 mil para auxiliar os produtores nesta empreitada de tornar produtiva uma terra antes arrasada pelas conhecidas voçorocas ou “terra rasgada por grandes buracos” na língua tupi.

O “Projeto Voçoroca”, como ficou popularmente conhecido pelos produtores rurais, visa não apenas ao fechamento dessas grandes erosões, mas se propõe a corrigir as causas e promover a estabilização da área com cobertura vegetal, pois será exatamente essa cobertura a grande responsável por tornar a terra produtiva novamente. Por este motivo, estão previstos nessa verba a aquisição de calcário, sementes, mudas, fertilizantes, cercas e estruturas hidráulicas para dessedentação animal, dentre outros insumos e a colocação de cercas de proteção quando necessário.

Como explica o engenheiro agrônomo Walter Hipólito da Silva, responsável pela Unidade Técnica de Engenharia (UTE) da CATI Regional Marília, “cada caso é um caso” e é preciso ouvir o produtor, estudar a área, para ver qual a técnica que melhor se aplicará na resolução daquele problema específico. Assim, pode-se optar por terraços, bacias de contenção ou caixas, enfim uma prática para cada caso. São várias as possibilidades e soluções que podem ser propostas e o produtor pode ter o auxílio de um técnico para orientar, mas o projeto é elaborado pelo técnico da UTE, devidamente capacitado para tal, em seguida enviado para análise técnica ao engenheiro agrônomo Mário Ivo Drugowich, especialista em conservação do solo e da água e responsável pelo setor de geoprocessamento do Centro de Informações Agropecuárias (Ciagro/CATI) e, a seguir, executado sob a supervisão técnica da UTE. O recurso só é depositado na conta do proprietário após esse trâmite, afinal não se quer soluções de curto prazo, paliativas, mas realmente uma solução definitiva para a conservação e produtividade do solo paulista.

Segundo Mário Ivo, não existem áreas prioritárias no Estado, nem escolha por produtor com grandes terras ou um pequeno produtor, todos têm direito a essa verba de R$ 15 mil por CPF, seja terra própria ou arrendada. O que acontece, segundo o técnico, é que as grandes erosões estão em solos que já foram exaustivamente cultivados e encontram-se mais vulneráveis às erosões, ou seja, solos pobres, rasos, sem cobertura vegetal, improdutivos. Por isso não é surpresa para os técnicos das UTEs eles serem mais encontrados na região Oeste paulista, caso dos municípios abrangidos pelas CATI Regionais Marília, General Salgado, Presidente Prudente, Presidente Venceslau, Dracena, onde os exemplos já são muitos e a demanda cresce a cada dia.

Na CATI Regional Marília, o responsável pelos projetos é Walter Hipólito, o “Wartinho”, como ele mesmo se apresenta. Ele é um dos 30 técnicos treinados pela CATI em 1999 para atender ao Programa Estadual de Microbacias Hidrográficas (PEMH) em sua primeira fase (de 2000 a 2008), quando eram elaborados projetos de readequação de estradas rurais. Walter Hipólito veio se especializando para atender às demandas impostas não só para a readequação de trechos críticos de estradas rurais, mas também para lidar com o Projeto Integra SP–Radge, que entrou em vigor a partir de 2013, mas que recebeu novo impulso nos anos de 2015 e 2016 e que promete atender um número ainda maior de produtores rurais em 2017. “Como vem se tornando mais conhecido, oferecendo bons resultados na recuperação e no controle de áreas por meio das mais diversas técnicas, a tendência é o crescimento e a maior visibilidade”, ressalta o técnico. Dinheiro para isso há. Mário Ivo, idealizador e responsável pelo Projeto, argumenta que o governo do Estado tem disponíveis para este ano R$ 5 milhões para atender à demanda, a qual deve ser feita via Casas da Agricultura e Regionais CATI. Até o momento, 92 projetos já foram pagos e 112 voçorocas exterminadas no Estado. “O nosso gargalo não é a verba, mas a falta de recursos humanos”, salienta Mário Ivo, que conta com apenas 30 técnicos treinados em todo o Estado e que têm, atualmente, outras atribuições além do Projeto Integra SP-Radge, como os projetos de readequação de trechos críticos de estradas rurais, capitaneados pelo Projeto Microbacias II – Acesso ao Mercado.

A equipe do Centro de Comunicação Rural foi conhecer algumas dessas intervenções e saber a história por trás delas. Em Ocauçu, município da área de atuação da CATI Regional Marília, uma área já está pronta e o gado começa a ser colocado sobre a pastagem nos quatro piquetes. De longe, pelo passeio do drone, recém-adquirido pela CATI para melhor visualizar tanto o que precisa ser realizado, como averiguar o que já foi feito, é possível observar o pasto verdejante que nasceu onde existia apenas uma erosão “corroendo” uma área de praticamente três hectares de uma propriedade que tem pouco mais de 14ha para trabalhar. O proprietário, Paulo Henrique de Assis Menegucci, está orgulhoso e já faz planos de aumentar a capacidade de lotação do pasto. “Ganhei do dia para a noite um terço de minhas terras”, conta Paulo, que adquiriu a propriedade de 14,9ha em 2009, já com uma erosão em andamento. Foi uma semana de trabalho com as máquinas – 79horas/máquina – e mais 60 dias para a estabilização da pastagem de braquiária MG-4. “Eu já havia tentado controlar a erosão, fiz cinco caixas de contenção, mas ela só crescia e foi só com a intervenção proposta pela CATI que o problema finalmente foi resolvido”, conta satisfeito o proprietário da Estância Menegucci. A última boa notícia foi saber que R$ 13.455,00, dos R$ 17.300,00 gastos no total, já estão na conta.
 

Produtor Paulo Menegucci (último à esquerda), de Ocauçu, observa junto com a equipe de técnicos
da CATI a área onde o projeto, definido pela UTE Marília, foi implantado.


Mário Ivo e Walter Hipólito argumentam que é preciso ter o comprometimento do proprietário, que deve arcar com os custos para depois ser ressarcido. “O valor de R$ 15 mil geralmente cobre todas as despesas, mas na maioria das vezes os proprietários se animam e acabam solicitando uma intervenção maior e aí assumem os custos que ficam acima”, afirmam. Isto por conta do efeito de difusão de tecnologia, onde o produtor adota a prática no restante da propriedade após verificar a sua eficiência. Vale a pena, concordam aqueles que já têm ou que estão à espera da aprovação do projeto, afinal contam com toda a técnica de restauração proposta pela CATI, “uma oportunidade sem igual, isso não tem preço”, afirma Paulo.

Loteamento Fazenda São Jerônimo – seis pequenas áreas recuperadas

Essa também é a opinião de seis dos sete produtores que tinham problemas em seus lotes de 4,5ha adquiridos via Projeto Banco da Terra. A Fazenda São Jerônimo, em Amadeu Amaral, distrito de Marília, foi arrecadada e os lotes sorteados entre as 32 famílias adquirentes, todos pequenos agricultores que têm como principal característica uma agricultura diversificada, um pouco de horta, um pouco de fruta, mandioca, umas cabeças de gado, de tudo um pouco para tirar o sustento. O loteamento foi montado há pouco mais de três anos e recentemente foram construídas as casas populares para abrigar as famílias detentoras dos lotes. Mas algumas, como as dos vizinhos João Gonçalves e Daniel Marcelino, não tinham terras agricultáveis. Eles dividiam a mesma preocupação com Manoel de Souza e Silva, Alexandre Ferreira Gonçalves, Agenor Alves da Silva e Carlos Roberto Jerônimo, e mais um produtor que não aderiu ao Projeto Radge. De todas, em sete áreas haviam erosões, algumas maiores, outras menores, mas todas inviabilizando a prática agrícola na área total. Dos sete, seis disseram sim e hoje já têm suas terras recuperadas. Um deles é Carlos Jerônimo que já trabalha com bicho da seda e mandioca e resolveu instalar um pomar de mangas em seu terraço recém-terminado; vai plantar café também. As 150 mudas de mangueira Palmer foram adquiridas do Departamento de Sementes, Mudas e Matrizes da CATI, com garantia de qualidade, e estão esperando para serem transplantadas na terra ainda nua, mas que precisa urgentemente ser recoberta para que todo o trabalho não seja perdido. “Esse é o compromisso: fazer análise da terra, adubar, colocar calcário, deixá-la pronta para receber o novo cultivo, seja este um pomar, um cafezal, pastagens, uma lavoura anual de milho e feijão ou uma estufa para cultivo de olerícolas”, explica Walter, elencando cada projeto de vida que nasceu junto com o projeto técnico de recuperação da área.

Na propriedade que coube ao Agenor Alves da Silva havia uma estrada, não uma bela estrada para escoar a produção, mas um trecho de estrada erodida e encaixado que dividia as terras e impedia que ele e a mulher atravessassem para o outro lado da propriedade. “Era uma terra perdida, não dava passagem e nem era possível plantar nada ali”, conta o produtor. Na verdade era um buraco de 30m de comprimento, 20m de largura e 8m de profundidade em terreno íngreme. A opção foi fazer caixas de contenção usando uma técnica preconizada pela CATI de colocar canos (drenos de pé) para escoamento da água por gravidade até a parte mais baixa, de forma a não causar erosão e ainda alimentar os cursos de água ou o lençol freático, já tão aflorado em um argissolo susceptível à erosão, como a maioria das terras da região. No trecho recuperado Agenor vai cultivar tomate orgânico, plantar alho, banana de “três pencas” e aumentar o gado de leite. É como se tivesse ganho uma outra propriedade. Já instalados na casa nova, ele e a mulher contam com a ajuda dos dois filhos nos finais de semana. “Gostaria que todos pudéssemos viver da atividade rural”, conta, afinal agora ele realmente tem os 4,5ha prometidos no início, quando houve o sorteio dos lotes. “Deus sabe o que faz, tinha a pior propriedade; agora acho que tenho a melhor!”, diz com orgulho.
 

No loteamento Fazenda São Jerônimo seis projetos foram executados em toda a área,
permitindo aos pequenos proprietários terem suas terras totalmente agricultáveis.


UTE General Salgado – equipe multidisciplinar é ágil e parceira nas ações

É esta a ideia: gente por trás de cada projeto técnico. Quem ia vender a propriedade já não vende mais, caso venda já será por outro valor; outros nem pensam em vender, querem recuperar o tempo perdido, aumentar a lotação no pasto, plantar eucalipto, iniciar uma outra atividade ou simplesmente pescar e reunir a família debaixo de uma árvore ou até de uma casa nova. Não é divagação, esses são relatos de pessoas como Olga e Enésio Cunha, que estão casados há 58 anos e esperam reunir a família na terra que herdaram. Já havia uma erosão que foi aumentando ao longo dos anos, agora com a área recuperada eles querem voltar a ter um lugar no campo onde os dois foram criados. Olga e Enésio são de General Salgado, onde o técnico agrícola Denílson Perpétuo Godoy, acompanhado do auxiliar de apoio Marcos Roberto Francisco e de um grupo de apoio à UTE, formado por engenheiros agrônomos, tanto conveniados quanto do quadro de funcionários das Casas da Agricultura vinculadas à CATI Regional General Salgado, são responsáveis pelos 13 projetos já executados, mais dois aprovados e 10 em fase de elaboração.

Olga e Enésio agora observam com emoção o capim que começa a brotar na área onde havia um enorme buraco (170m de comprimento por 9m de largura e 6m de profundidade). Eles relembram o tempo em que eram jovens e pegavam água na mina, namoravam e andavam por ali. O tempo passou, os pais de Olga, donos da terra, faleceram, os quatro filhos dividiram a propriedade e, dos 18,8ha que lhes couberam, em torno de 2,5ha eram de erosão. “Não foi sorteio, foi escolha, os outros escolheram e ela ficou com o que sobrou”, conta Enésio. Mas orientada pelo neto Bruno Fantini, médico veterinário da Casa da Agricultura de General Salgado, sabiam da existência do Projeto Integra SP - Radge e dos R$ 15 mil a fundo perdido. Investiram mais, no total R$ 22.270,00, mas sabem que valeu a pena. “O alqueire valia R$ 30 mil; hoje vale R$ 50 mil”, contam os dois. Mas nem pensam em vender; é o lugar para reunir a família e deixar para os netos. “Vamos construir uma nova sede, a represa já tem lambaris e nas nossas Bodas de Diamante (60 anos de casados) vamos oferecer um grande churrasco para comemorar. Eles não têm pressa, finalmente estão realizados vendo a braquiária brotar e os peixes crescerem. “Era para ser apenas uma bacia de captação, mas ficou um pouquinho maior para poder colocar os peixes”, conta Enésio. Denílson explica que eles quiseram ampliar a bacia, “então fizemos a vontade deles”, o excedente de água segue para o riacho da infância de Olga. Tudo voltou ao lugar, inclusive eles.

Outro município da área de ação da CATI Regional General Salgado é Floreal, onde os vizinhos Oswaldo Burachi, do Sítio São Luiz, e Albino Leso, do Sítio N. Sra. de Lourdes, já estão usufruindo os benefícios da primeira fase do Projeto Integra SP-Radge, quando a subvenção ainda era de R$ 10 mil. Os projetos foram feitos em 2014 e executados em 2015 e, hoje, eles já podem mostrar a área onde o capim cresce notadamente mais verde e viçoso, resultado visível da fertilidade do solo e da capacidade de lotação do gado, essencial para ambos que vivem da bovinocultura de corte, atuando com recria e engorda. “Uma das prerrogativas da aprovação do projeto é que áreas à montante não causem danos às terras mais baixas, então ou os vizinhos entram ou ninguém entra, por isso há todo um trabalho preliminar com os produtores envolvidos”, explica o técnico da UTE General Salgado. Buracchi aumentou a lotação do gado em um terço e Albino já pensa em implantar, junto com o filho, outra prática preconizada pelo Projeto Integra SP, o sistema de integração pecuária-floresta, atuando com eucalipto e pastagem nas entrelinhas, assumindo assim uma segunda atividade.

Para Denílson Godoy, o mais importante para um bom entrosamento entre produtores e técnico responsável pela UTE é o trabalho inicial, o primeiro contato, que geralmente é feito pelo técnico responsável pela Casa da Agricultura. Em Floreal é o engenheiro agrônomo Edmar Roberto Bellatti Batello; em União Paulista é o engenheiro agrônomo Walterney Guizilini; ambos se unem para atuar na UTE. Junta-se ao grupo, acompanhando todas as obras, o auxiliar de apoio da Casa da Agricultura de Magda, Marcos Roberto Francisco. Geralmente é Marcos quem acompanha os operadores de máquinas, tanto as de esteira, pneus ou motoniveladoras; projeto na mão, ele verifica, explica e cobra que tudo seja feito de acordo. “Temos com uma equipe bem afinada e atuante em General Salgado; conto com a colaboração de todos eles”, confirma Denílson Godoy, explicando o sucesso dos projetos elaborados, executados e em execução na região.

Juntos, todos partimos para mais uma propriedade em Floreal; ela será a próxima a ter um projeto executado. O produtor Antônio Leso Sobrinho aguarda ansiosamente por isso, uma espera de muitos anos. Tudo começou com uma permuta de terras, ele ficou com a área maior, porém com um início de processo erosivo, e o vizinho com sua antiga propriedade, uma área menor, mas provida de água e uma casa. O vizinho morreu antes de acertar a papelada e, enquanto a erosão e os gastos iam aumentando, a disputa judicial andava a passos lentos. Foram 24 anos de espera, mas agora, enquanto a equipe da CATI verifica a erosão onde no fundo já aflora, como se fosse uma mina, a água do lençol freático, ele está feliz ao saber pelos técnicos que a solução “será simples”; tudo poderá ser resolvido com um conjunto de práticas que envolverão terraços, bacias de contenção, calagem e plantio de sementes para a recuperação da pastagem. “E o meu bambuzal, ele fica?”, é a sua preocupação porque enquanto esperava as touceiras de bambu se formaram, as árvores cresceram. Sim, o bambuzal fica para dar sombra ao gado e as árvores também serão preservadas. Então, Antonio já marca um churrasco por ali, à sombra das árvores e à vista do rebanho que ele pretende colocar no pasto reformado.

O Projeto Integra SP – Radge pode ser medido em números, mas o solo e a água recompostos, a fertilidade restaurada e as vidas que vêm sendo transformadas é o que realmente importam para esse grupo de trabalho formado na CATI durante quase duas décadas para serem especialistas em recuperação de áreas degradadas por grandes erosões, serem especialistas no papel de extensionistas rurais, aqueles que levam muito mais do que tecnologia ao homem do campo, levam uma forma de promover a fixação do homem no campo ao se manterem na atividade, terem renda e aliarem agricultura com práticas conservacionistas, reafirmando que agricultura e meio ambiente podem e devem conviver para o bem de todos. Este é o verdadeiro conceito pragmático da sustentabilidade.
 

Imagens do drone mostram a recuperação da área do casal Olga e Enésio; projeto executado pela 
equipe da UTE General Salgado.


Graça D'Auria - Jornalista - Centro de Comunicação Rural (Cecor/CATI)

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