09/04/2018 08:00

Em uma comunidade do Vale do Ribeira, em São Paulo, a vida melhorou muito depois que os agricultores, descendentes de escravos, foram reconhecidos oficialmente como quilombolas. Eles passaram a ter uma porção de direitos, como acesso a crédito e assistência técnica, mas, acima de tudo, resgataram a própria identidade. O Vale do Ribeira mantém uma das áreas mais preservadas da Mata Atlântica no Paraná e em São Paulo. É também um importante reduto de descendentes de escravos. Das 33 áreas quilombolas reconhecidas em terras paulistas, 26 estão no Vale do Ribeira. No caso da comunidade Peropava, localizada no município de Registro, o reconhecimento saiu em 2011, depois de seis anos de estudos coordenados pelo Instituto de Terras do Estado de São Paulo. Os primeiros registros dessa população de negros por lá datam de 1845.

De tudo o que eles produzem, a farinha de mandioca é talvez o alimento mais antigo. “É o sustento da família. Sempre foi e tem que continuar sendo a farinha”, conta a quilombola Maria Regina da Silva Cabral. Maria Regina e José Cabral fazem por volta de 300 quilos de farinha por semana. Eles apontam as mudanças que vieram com a oficialização do quilombo. “A gente vivia com pouca renda, agora melhorou a renda. Nós não tínhamos ônibus, íamos a pé para a cidade. Agora tem ônibus todo dia”, diz Maria Regina. José Cabral completa: “nós morávamos em casa de sapê. Agora a casa é de alvenaria. Hoje tem móveis, televisão, tem antena, cama.” Veio também a independência financeira. Até pouco tempo atrás, os produtos da comunidade eram trocados, como num sistema de escambo. Agora, tudo virou mercadoria e tem preço.

O reconhecimento de ser quilombola deu à comunidade o acesso a recursos governamentais já disponíveis para essa população. Foi assim com o programa estadual de Microbacias, que liberou R$ 400 mil para compra de máquinas e equipamentos. “O governo estadual reconhece aquela comunidade como sendo remanescente de quilombo e aí o dinheiro sai. Aí tem condição daquela comunidade acessar o programa. Você tendo áreas produtivas, você aumenta a renda da comunidade. Aí faz toda a diferença. Você insere grupos que estavam isolados no mercado, na economia”, explica o agrônomo e diretor Regional da CATI Antônio Eduardo Sodrzeieski. O quilombo Peropava foi reconhecido com uma área de 392 hectares e hoje moram 31 famílias. Cada uma delas tem menos de um hectare para trabalhar. O restante ainda é de mata preservada. A presidente da associação Maria Izidoro Alves diz que todas as mudanças que ocorreram só foram possíveis graças ao apoio e à iniciativa dos técnicos que atendem a região.

Ao contrário de outros quilombos, o Peropava não se caracterizou por um lugar de refúgio dos escravos. “Com o declínio da atividade agrícola, o patrão foi embora, abandonou a fazenda e eles tomaram conta. Não é um quilombo de resistência, de negros fugidos. Eles ficaram porque foram abandonados pelo patrão”, explica o agrônomo da CATI, que presta assistência técnica à comunidade, Rogério Sakai. Antes do reconhecimento, a realidade da comunidade tinha a seguinte dinâmica: os homens só ganhavam a vida como diaristas nas propriedades vizinhas e as mulheres ficavam em casa praticamente sem nenhuma renda. Isso sem contar as famílias inteiras que foram embora atrás de trabalho. Hoje em dia, a situação vem mudando aos poucos e algumas pessoas voltaram. Enquanto a comunidade cresce junto, os quilombolas experimentam avanços na lida com suas lavouras. É que a chegada da mecanização e de equipamentos a gasolina reduziu o esforço do trabalho manual.

A organização que a comunidade conseguiu no campo trouxe os quilombolas para a cidade. Cinco vezes por semana, em cinco feiras diferentes, o pessoal coloca em prática um dos aprendizados mais importantes no processo de independência financeira: a comercialização dos seus produtos.

Confira a reportagem em vídeo no link https://globoplay.globo.com/v/6645685/
 

César Dassie - Globo Rural/ Rede Globo

 

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