LEITE A2/A2 – um novo mercado à vista

Acesse o video


Uma nova experiência pode trazer uma grande esperança para as pessoas, principalmente crianças, que nascem com alergia ao leite. Diferente da já divulgada intolerância à lactose, que pode ser adquirida durante a vida e para a qual os intolerantes já contam com variados produtos no mercado, a alergia ao leite pode levar a casos graves de alergia. A literatura ainda traz como principais benefícios do leite A2 sua possível ligação com o controle dos níveis de colesterol e com o diabetes tipo 1. “Recentemente surgiu na literatura a possibilidade de melhorar processos inflamatórios das mucosas gástrica e intestinal, possivelmente decorrentes da beta-casomorphin-7 (BCM7), produto resultante da digestão da beta caseína A1”, afirma o pesquisador do Instituto de Zootecnia, Aníbal Eugênio Vercesi Filho, que comanda a pesquisa com o leite A2 na Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA) do Estado de São Paulo.

Para explicar o leite A2/A2, vamos voltar às aulas de genética onde aprendemos que existem tipos sanguíneos diferentes como o A2, B2, A1, B1 que podem resultar em diferentes cruzamentos. Por exemplo, um bovino pode ser A2/B2 ou B2/B2 ou, ainda, A1/B2 e assim por diante. Para ser comprovadamente A2/A2 é necessário direcionar os cruzamentos para produzir esse leite em escala comercial e ter laticínios que garantam o produto diferenciado. O tipo A2/A2 é comumente encontrado em raças zebuínas, mas com os vários cruzamentos feitos no Brasil, a identificação precisa ser feita por laboratório, em teste de genoma.

Em países como Austrália e Nova Zelândia, a comercialização de leite A2 não é uma novidade. No Brasil, a oferta desse produto ao mercado deve ser realidade em breve, estima o pesquisador do IZ. “O IZ está fazendo a seleção das raças Holandesa, Jersey e Girolanda para produção de leite A2 por meio da genotipagem das matrizes e utilização por meio da inserminação artificial com touros A2, visando selecionar matrizes que produzam leite contendo a beta-caseína A2, proteína relacionada aos benefícios decorrentes do consumo de leite para a saúde humana”, diz Aníbal.

Os cruzamentos direcionados têm garantido a genética A2/A2 do rebanho. Além de São Paulo, outros estados vêm pesquisando o leite A2/A2 com vistas ao potencial mercado consumidor, entre eles Minas Gerais e Rio Grande do Sul, em especial, mas também Paraná e Espírito Santo. “É uma alternativa para a população que precisa deste leite e para o produtor que pode oferecer um produto diferenciado ao mercado, com valor agregado, principalmente na oferta de produtos lácteos processados, como queijos, iogurtes etc.”, explica o médico veterinário Carlos Pagani Neto, assistente técnico de Bovinocultura da CATI/SAA e um dos autores do Plano da Bovinocultura Leiteira Paulista, o Mais Leite, Mais Renda, recém-lançado pelo governo do Estado com o objetivo de incrementar a produção de leite e a rentabilidade dos pecuaristas no Estado de São Paulo e envolve vários órgãos da pasta, além de universidades paulistas e outras entidades relacionadas ao agronegócio do leite.

O gado Sindi, raça zebuína originária da Índia e do Paquistão, é conhecida pelas qualidades de carcaça e carne, e por esse motivo apreciada pela pecuária de corte, mas também apresenta aptidão para produção leiteira, garante o maior criador da raça, Adaldio Castilho Filho, proprietário das Fazendas Reunidas Castilho. “A raça Sindi está em nossa família há 81 anos, fazemos a seleção, multiplicação e disseminação  da raça”, conta Adaldio, que herdou não só as propriedades, mas o compromisso da perpetuação da raça no Brasil com a venda de embriões genuinamente Sindi. “Temos a garantia da pureza da raça”, diz com orgulho Adaldinho, como é conhecido na região de Sales e Novo Horizonte, onde ficam localizadas as propriedades Castilho.

       


A paixão de Adaldio, na verdade, eram os cavalos Mangalarga e ele sempre participou de exposições levando o melhor da raça. Até que um dia apareceu em um torneio leiteiro com duas novilhas de cor vermelha, característica da raça Sindi. E tomou gosto, assumindo a herança da família, a Sindi Castilho. E confirma: “A raça tem dupla aptidão, são animais dóceis, de fácil manejo, como é pretendido pela pecuária leiteira e têm uma carne que favorece o marmoreio, apreciado pelos pecuaristas de corte”, salienta o criador.

O desafio do criador em divulgar o potencial do leite A2/A2 na raça Sindi aconteceu após ser procurado por Marcos Peres, um pai aflito, disposto a comprar uma vaca Sindi para fornecer leite ao filho alérgico à beta-caseína, o que tornava sua alimentação muito restrita. Depois da troca de informações, Adaldio procurou Carlos Pagani Neto, para saber como a SAA poderia contribuir na elaboração de um projeto sobre a produção de leite A2/A2 na região. Pagani foi diretor da CATI Regional Catanduva por vários anos e, desde 2007, coordena o Projeto CATI Leite em todo o Estado. Hoje, o técnico está na equipe técnica da SAA, a qual irá implantar o Plano da Bovinocultura Leiteira Paulista, o Mais Leite, Mais Renda em todo Estado. Pagani conta que após esse contato, tomou vulto o plano regional, unindo a pesquisa que já é realizada pelo Instituto de Zootecnia, com a extensão, com a defesa agropecuária, com os laticínios da região e pecuaristas para elaborar um projeto regional de produção de leite A2/A2. Plano esse lançado no dia 17 de agosto em Novo Horizonte, fechando todos os elos da cadeia produtiva.

“São Paulo é um grande mercado consumidor de leite, tem um público atento e ávido por novidades, uma pesquisa qualificada que acompanha as tendências e uma determinação da SAA para o trabalho em parceria, principalmente entre pesquisa e extensão rural, para que os resultados e novidades tecnológicas cheguem mais rápido ao produtor rural. Essa é a determinação do governo do Estado, via Secretaria de Agricultura e Abastecimento, que estamos seguindo com a divulgação do leite A2/A2, para oferecer uma alternativa aos nossos produtores para a agregação de valor ao seu produto. Tendo a garantia de ser um produto diferenciado, o valor pelo litro pode dobrar”, conclui Pagani.

O futuro do leite A2 é promissor, segundo o pesquisador do IZ, em pesquisa realizada com o gado Gir Leiteiro, uma das raças mais utilizadas em cruzamentos, de cada 10 vacas, oito tem probabilidade de serem A2/A2. “Não é difícil encontrar essa genética, mas ela precisa ser comprovada pelo exame laboratorial e o leite A2 não pode ser misturado ao leite comum; serão necessários tanque e sistema próprios para o processamento, desde a propriedade até o produto final”. Aníbal explica que o leite A2 também tem demonstrado outras peculiaridades importantes para a saúde humana relacionadas aos níveis de colesterol, presença de diabetes e inflamação das mucosas gástrica e intestinal (ver box na página 31) Nas universidades paulistas os testes com ratos já tiveram início, mas as evidências com humanos, como o caso de Cesário Lange e também os relatos em seminários e fóruns nacionais e internacionais já vêm comprovando o que a pesquisa procura confirmar cientificamente. No IZ, um dos principais objetivos da pesquisa é a formação de um rebanho que forneça leite contendo apenas a beta-caseína A2 para que sejam fornecidas matrizes e reprodutores que passem aos seus descendentes essa mesma característica.


O material coletado vem sendo analisado pelo Laboratório de Genética Molecular do IZ, capaz de identificar a composição genética e aumentar o rebanho e, consequentemente, a frequência do A2. Dentro de mais algum tempo, o leite A2 poderá entrar comercialmente no mercado brasileiro, como já acontece em outros países.

Ter a SAA envolvida, leva também à ação da Coordenadoria de Defesa Agropecuária (CDA), órgão responsável por garantir a qualidade, sanidade e inspeção dos produtos de origem animal. O médico veterinário César Krüger, diretor do Centro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Cipoa/CDA), afirma

que a questão é de adaptação dos laticínios. “O processo é igual ao de outros tipos de leite, como o produto sem lactose. Só será necessário ter a certeza que não houve nenhuma mistura, pois basta um litro de leite vindo de genética diferenciada para que todo o produto deixe de ser considerado genuinamente A2/A2. Mas os laticínios já fazem isso com o leite livre de lactose para quem tem intolerância, então creio que não teremos nenhum entrave quando for o caso de processar o leite A2/A2”, esclarece Krüger.

Entre todas estas novidades, o importante é afirmar que não se trata de um leite ser melhor ou pior, mas destinado a uma parcela da população, para garantir que tenham o cálcio necessário. “Existe um mito de que humanos ou mamíferos em geral não precisam tomar leite, apenas consumir derivados, mas tal afirmação não confere. A ingestão de leite é essencial tanto na infância quanto na velhice e seu consumo deveria ser incentivado, mas como tantos outros alimentos, como o ovo em uma época ou café em outra, vem passando por uma campanha contrária às suas reais qualidades nutricionais. É um dever da pesquisa e dos meios de comunicação desmistificar essas “verdades”, explica Aníbal.

Disseminar estas e outras informações é o que o grupo de trabalho − reunindo técnicos, pesquisadores, nutricionistas, professores, produtores rurais e empresários do setor, ou seja, parceiros públicos e privados − pretende fazer para tornar conhecido o leite A2/A2 ou simplesmente os benefícios do leite na vida das pessoas.

       


Receituário Médico

A indicação em receituário médico para que Arthur, filho de Marcos Peres, passasse a ingerir leite de vacas da raça Sindi foi do médico gastroenterologista Dr. Juliano Teles, de Cesário Lange. Segundo Marcos, que nada sabia de vacas e muito menos da raça Sindi, a prescrição foi clara, e então ele foi em busca de informações. Foi assim que chegou até a Fazenda Castilho e ao seu proprietário, Adaldio Castilho Filho, que entendia tudo de criação de gado Sindi, com premiação em torneios leiteiros onde procura provar a dupla aptidão da raça para fornecimento de carne e leite etc., mas nada sabia sobre alergia ao leite.

A troca de informações entre duas pessoas atentas e ansiosas por novidades resultou em uma parceria e divulgação dos benefícios do leite A2. Para Arthur, na época com dois anos (2015), o empenho do pai resultou em qualidade de vida.

Marcos chegou à Fazenda Castilho com a intenção de comprar uma vaca com bezerro, para fornecer leite ao filho. Acabou saindo de lá com uma vaca, um bezerro, um touro e 20 novilhas. Produzir leite também não é o negócio de Marcos Peres, ele tem um parque aquático no município de Cesário Lange para onde levou o rebanho. Hoje, dois anos depois, tem 84 cabeças e fornece leite para 54 pessoas que têm alergia comprovada. “Meu intuito não é viver da produção de leite, até porque não adquiri animais de primeira linha em relação ao leite; cada vaca produz apenas de dois a três litros/leite/ dia, faço isso para ajudar outras pessoas, mas com o tempo quero melhorar a genética do rebanho para ter vacas com maior aptidão para leite”, frisa Marcos Peres.



Projeto do IZ considera principais raças leiteiras

O leite é uma importante fonte de proteína animal na alimentação humana. As caseínas respondem por 80% das proteínas do leite bovino. Entre as quatro variantes existentes, a beta-caseína tem sido muito estudada por apresentar um alelo (A1) associado a doenças em humanos. O aparecimento das doenças (cardiovasculares e diabetes tipo 1, principalmente) está associado à digestão da beta-caseína A1 no trato gastrintestinal humano, que tem como um de seus produtos finais um peptídeo bioativo BCM-7. Esse alelo (A1) é uma mutação do alelo A2 (uma prolina na proteína A2 é substituída por uma histidina na proteína A1) e é encontrado com maior frequência em animais de raças taurinas, como a Holandesa. Os alelos da caseína também estão associados às características produtivas em gado de leite, principalmente ao aumento na produção de proteína. No Brasil, a grande maioria da população produtora de leite é mestiça, resultante do cruzamento de uma raça zebuína (predominantemente a Gir) com uma taurina (predominantemente a Holandesa), que responde por cerca de 70% da produção de leite nacional.

A raça Gir Leiteiro foi a primeira raça zebuína no mundo a ter reprodutores selecionados por teste de progênie, com a implantação do Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro (PNMGL), em 1985. Este projeto visa à genotipagem de 400 matrizes da raça Gir Leiteiro para os alelos A1 e A2 da beta-caseína, assim como estimar a associação entre o polimorfismo A1/A2 com características produtivas (leite, gordura e proteína), contribuindo desta forma para a seleção e utilização desse importante recurso genético na cadeia produtiva do leite no Brasil.


Resumo do projeto apresentado pelo pesquisador Aníbal Eugênio Vercesi Filho
Instituto de Zootecnia (IZ/Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios/SAA).

 

Mais informações: (19) 3743-3870 ou 3743-3859
jornalismo@cati.sp.gov.br