Produção Vegetal


Mamona Al Guarany 2002

Fotos: Eng. Agr. Maria Inês de A. Marianno

A mamoneira (Ricinus communis L.) é uma planta de origem tropical, possivelmente da Etiópia, leste da África. Resistente à seca e exigente em calor e luminosidade (20º a 30ºC), requer para o seu crescimento e desenvolvimento pelo menos 500mm de precipitação pluvial, equivalentes a 5.000m3 ha-1. Pode ser produzida em altitudes que variam de 300 a 1.500 metros e semeada em vários tipos de solo, exceto nos muito argilosos, sujeitos a encharcamento, salinos e/ou sódicos, com elevado teor de sódio trocável.
É uma oleaginosa de alto valor, tanto econômico como social. No Brasil, é uma cultura produzida tradicionalmente em pequenas e médias propriedades, gerando emprego e renda em razão de suas inúmeras possibilidades de aplicação na área industrial, além da perspectiva de potencial energético na produção de biodiesel, tornando-se um agronegócio bastante prmissor.

 Produtos e subprodutos da mamona

  •  Óleo - é o melhor óleo vegetal para fins industriais, pois não muda as suas características em altas, baixas ou em variações bruscas de temperatura. O óleo de mamona é fonte natural de ácido ricinoléico e possuidor de estrutura química altamente reativa. Do óleo de ma-mona são obtidos cosméticos, lubrificantes, plastificantes, detergentes, graxas, tintas, vernizes, poliuretanos, defensivos agrícolas, próteses humanas, entre outros.
  •  Torta e frelo - subprodutos utilizados como adubos orgânicos e conhecidos pelo seu efeito nematicida. São obtidos dos grãos, após a extração do óleo, e apresentam cerca de 6 e 1% de óleo, respectivamente.

 

Cultivares

 

Existem várias cultivares de mamoneira disponíveis para o plantio. Elas diferem em

porte, deiscência dos frutos, tipo dos cachos e outras características. A CATI, através da coordenação do Centro de Testes, Avaliação e Divulgação (Cetadi), com a colaboração de várias unidades do Departamento de Sementes, Mudas e Matrizes , desenvolveu a cultivar AL Guarany 2002, obtida mediante seleção massal clássica em mamona Guarani.

 

 AL Guarany 2002

 

Apresenta características agronômicas e tecnológicas de grande aceitação, tanto pelos agricultores do Estado de São Paulo, quanto de outros Estados do Brasil, principalmente pela suas qualidades industriais.

 

Cultivar de boa rusticidade, é resistente à seca e apresenta capacidade de produção média entre 1.000 e 2.000kg/ha de grãos (bagas ou frutos descascados) em condições de sequeiro.

 

Tecnologia de produção

 

Na escolha da área a ser semeada com mamona, deve-se considerar

o relevo, preferencialmente plano ou suave ondulado, com declividade inferior a 12%, utilizando-se sempre o plantio em nível. O solo deve ter pH próximo da neutralidade e ser bem preparado, em sistema convencional ou, preferencialmente, plantio direto, utilizando-se práticas que evitem erosão. A mamoneira tem raiz pivotante profunda, podendo chegar a cerca de 2m, o que contribui para a sua resistência à seca. Áreas mal preparadas, com camadas adensadas, impedem o seu desenvolvimento, ocasionando plantas de porte menor e baixa produtividade.

 

Semeadura

 A fertilidade do solo, a época de semeadura e o espaçamento devem ser levados em consideração. Em solos de alta fertilidade, a planta tende a apresentar porte maior, sendo necessária a ampliação do espaçamento para evitar estiolamento. Em solos de baixa fertilidade natural ou desgastados, utilizar maior densidade populacional, uma vez que as plantas tendem a ter porte menor.

 O porte da planta também varia em função da disponibilidade de água, sendo maior quando semeada no início do período chuvoso e diminuindo à medida que se atrasa a época de semeadura.

 A definição do espaçamento leva em consideração a cultivar, variando de 3m (entrelinhas) x 1m (entre as plantas na linha) até 0,5m x 0,3m. Para a cultivar AL Guarany 2002, recomenda-se espaçamento de 1,5m (entrelinhas) x 1m (na linha) em semeadura de verão e 1m (entrelinhas) x 1m (na linha), em solos de baixa fertilidade e/ou semeadura de safrinha, ou seja, 6.667 plantas ha-1 (verão) e 10 mil plantas ha-1 (safrinha), com gasto de semente em torno de 5 a 10kg ha-1

Para semeadura manual, recomendam-se duas sementes/cova, com posterior desbaste e, para semeadura mecanizada, uma semente/cova, considerando a porcentagem de germinação da semente para o cálculo de necessidade de semente ha-1. As sementes devem ser colocadas para germinar a uma profundidade de 5 a 8cm, dependendo do tipo de textura do solo. Em solos mais leves ou arenosos, sementes mais fundas; nos pesados ou argilosos, mais rasas. A profundidade dependerá, ainda, do método de plantio (manual ou mecânico) e do controle de plantas daninhas.



Época de semeadura

Para o Estado de São Paulo, a época de semeadura vai de setembro a março, desde que haja disponibilidade hídrica e não exista risco de geada. Semeaduras tardias têm reflexos negativos na produção. As restrições são áreas sujeitas a ventos fortes, geada e/ou baixa temperatura e alta umidade relativa por longos períodos. Para regiões com limitações de temperatura por causa de inverno acentuado, o produtor precisa avaliar a possibilidade de semeadura antecipada, ou seja, logo no início do período chuvoso, utilizando cultivares de ciclo curto ou médio, buscando obter produção antes do período com limitações.

 

Calagem e adubação

 A mamoneira é uma planta exigente em nutrientes, razão pela qual é importante fazer a análise de solo. Dados sobre recomendação de adubação podem ser obtidos no Boletim 100 do Instituto Agronômico de Campinas. Recomenda-se a aplicação de calcário para elevar a saturação por bases (V%) a 60% e o teor de magnésio a um mínimo de 5mmolc /dm3. Na semeadura: 15kg/ha de N, 40-80kg/ha de P2O5 e 20-40kg/ha de K2O. Em cobertura, 30-40 dias após a semeadura: 30-60kg/ha de N.

     

Na falta da análise de solo podem ser aplicados no sulco de plantio, por hectare, 40kg de sulfato de amônio + 300kg de superfosfato simples + 50kg de cloreto de potássio. No caso de uso de fórmulas podem-se aplicar no sulco de plantio, por hectare, 300kg de 4-14-8 ou 200kg de 4-30-10. A adubação de cobertura por hectare, para os dois casos, deve ser na base de 160kg de sulfato de amônio ou 75kg de uréia.

 

Para adubação orgânica podem-se utilizar torta de mamona, casca de mamona e outros, 2-3t/ha. Os restos de cultura de mamona, quando incorporados, promovem uma substancial melhoria do solo.

Controle de plantas daninhas

  A mamoneira é bastante sensível à competição causada pelas plantas daninhas, ocorrendo perda significativa de produtividade em caso de controle inadequado. O período crítico de competição se estabelece nos primeiros 70 dias após a emergência das plantas.

 Podem-se utilizar diversos métodos de controle de plantas daninhas, como o manual, via uso de enxada, o mecânico com uso do cultivador, o cultural, o químico, com o uso de herbicidas, e o integrado, envolvendo pelo menos dois dos métodos anteriormente citados ao mesmo tempo.

 

Para que o pequeno produtor possa manter a cultura livre da concorrência com as plantas daninhas são necessárias apenas duas ou três capinas ou o uso correto do cultivador (pequena profundidade, de 2 a 3cm, operação feita dentro do período crítico e complemento dentro das fileiras com a enxada). Capinas efetuadas fora desse período podem ser prejudiciais à lavoura. O emprego de herbicidas necessita de acompanhamento de profissional especializado, pois envolve vários tipos de conhecimento (correção do pH da água a ser utilizada, calibração dos pulverizadores, uso de bicos adequados, definição de produtos e dosagens a serem utilizados, métodos de aplicação, etc).

 

Rotação de culturas

A rotação de culturas é uma das mais importantes práticas agrícolas, embora muitas vezes negligenciada pelos produtores. Trata-se de um método eficaz de prevenção de pragas, doenças e de conservação do solo. Recomenda-se a rotação com culturas como milho, sorgo, amendoim, feijão, adubos verdes, além de evitar plantios sucessivos de mamona na mesma área. Após dois anos, recomenda-se mudar de local e evitar áreas ocupadas com mamonas nativas.

 

Pragas e doenças

A mamoneira, como toda e qualquer planta domesticada e cultivada, é suscetível a vários insetos e ácaros que podem lhe causar danos. As pragas que, esporadica-mente, podem atacar a mamoneira são percevejo-verde, cigarrinhas, lagarta-das-folhas, lagarta-rosca, lagarta-do-solo, ácaro-rajado, ácaro- vermelho.

Existem outros artrópodes que atacam a mamona, o feijão ou outra cultura que vier a ser consorciada, destacando-se para a mamona os seguintes: ácaro-rajado (Tetranychus urticae) e lagarta-imperial (Eacles imperialis). Para o feijão-vigna, destacam-se: paquinha (Neocurtilla hexadactyla), vaquinha (Diabrótica speciosa), lagarta-militar (Spodoptera frugiperda), várias espécies de pulgões, em especial (Aphis gossypii e Aphis fabae), mosca-branca (Bemisia spp.), percevejo-vermelho (Crinocerus bimaculatus) e minador-das-folhas (Liriomyza sativae).

Mesmo sendo uma planta rústica, com grande capacidade de adaptação a todas as regiões do Brasil, a mamo-neira, ao contrário do que se acredita, é bastante afetada por vários microorganismos, tais como fungos, bacté-rias e vírus, que podem causar prejuízos econômicos se as condições climáticas forem favoráveis ao seu desenvolvimento.

As principais doenças encontradas nas culturas de mamona são o mofo-cinzento (Botryotinia ricini), a murcha-de-fusarium (Fusarium oxysporum f. ricini), mancha-foliar-bacteriana (Xanthomonas axonopodis pv. ricini), a podridão-de-macrophomina (Macro-phomina phaseolina), a podridão-de-botryodiplodia (Botryodiplodia theobromae) e o tombamento causado por vários microorganismos, sendo os principais os fungos Thanatephorus cucumeris, correspondente à Rhizoctonia solani, Sclerotium rolfsii, Fusarium sp. e Alternaria sp., além da mancha-de-cercospora (Cercos-pora ricinella) e da mancha-de-alterná-ria (Alternaria ricini).

Observando-se qualquer sintoma de doença ou incidência de pragas, o produtor deve procurar um agrônomo para que possa receber as orientações adequadas para cada caso. No Estado de São Paulo, a Casa da Agricultura (CATI) do seu município.

 

Colheita

 

O sistema de colheita varia de acordo com a cultivar utilizada, podendo ser manual ou mecânica. Na colheita manual, os cachos devem ser cortados na base, depositados em cestas ou jacás e levados ao terreiro para finalizar a secagem. Cultivares deiscentes, ou que soltam os grãos, devem ser colhidas em várias etapas quando o cacho apresentar cerca de 70% de frutos maduros, sendo neces-sária a secagem no terreiro. Para a cultivar AL Guarany 2002, indeiscente, a colheita é manual e realizada em uma ou duas etapas, quando os frutos estiverem totalmente secos, diminuindo o serviço de secagem no terreiro. A inovação tecnológica para a cultura da mamona é a possibilidade de colheita mecânica utilizada nos Estados de Minas Gerais e Mato Grosso.Para aplicação da tecnologia é necessário: adequação das lavouras com relação à época de semeadura; utilização de espaçamentos menores; controle de plantas daninhas com herbicidas; possibilidade de uso de dessecantes ao final do ciclo; preferencialmente o plantio direto; uso de híbridos próprios para colheita mecânica e aquisição ou aluguel de kit de adaptação para colheita mecanizada de mamona instalado em plataformas de colheita de milho.



Secagem

A umidade ideal dos frutos para colheita é em torno de 10%. Para dimensiona-mento do terreiro deve-se considerar uma área de 200m2 para a secagem da pro-dução de um hectare de mamona. Os frutos de cultivares deiscentes se abrem depois de secos e soltam os grãos. Os que não abrirem devem ser batidos com varas ou submetidos ao beneficiamento por meio de máquinas simples manuais ou elétricas. Cultivares indeiscentes, como a AL Guarany 2002, necessitam de operação mecânica para separar o grão e a casca.

 

Armazenamento

Depois da secagem e beneficiamento, os grãos (bagas) devem ser armazenados. Utilizam-se sacos de 60kg para colocar os grãos limpos, devendo ser armazenados em local apropriado, com estrado de madeira, para evitar o contato direto dos grãos com água e outros materiais que possam prejudicar a sua qualidade.

 

Comercialização

É um aspecto fundamental e precisa ser avaliado antes da decisão de plantar mamona. Para iniciar na atividade é necessário conhecer o mercado, verificar os preços locais e internacionais, os compradores próximos e a possibilidade de elaboração de contrato de aquisição com as indústrias interessadas, como garantia de compra da produção.

As cotações de preços no Brasil têm por base as cotações de Irecê-Bahia e Roterdã-Holanda, em nível internacional. O Jornal Gazeta Mercantil, de São Paulo, além de vários sites, fornecem diariamente cotações relacionadas à cultura, sendo usualmente utilizadas como referência em contratos de produção.

O Departamento de Sementes e Mudas da CATI, através do Centro de Testes, Avaliação e Divulgação, e seus Núcleos de Produção de Sementes, com destaque para Ataliba Leonel, sediado em Manduri/SP, de onde provêm as cultivares AL, multiplica, em parceria com cooperadores, sementes de mamona AL Guarany 2002 e IAC-Guarani. São sementes certificadas, de qualidade garantida pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Além destas, podem ser encontradas sementes de milho, girassol, soja, amendoim, cereais de inverno e outras com os melhores preços do mercado.