Produção Animal


Utilizando o conceito de matéria seca na formulação de rações

Envio de amostras pré-secadas de forragens para análise:

A não ser mediante entendimento prévio com o laboratório, não se deve enviar amostras verdes ou suculentas para análise porque, enquanto o material contiver tecidos vivos, provavelmente a respiração celular e outras reações biológicas alterarão a composição da amostra desde quando ela for colhida até o momento em que ela for de fato processada. O transporte de amostras verdes sob refrigeração pode ser aceito, desde que a embalagem assegure a preservação da umidade original da amostra e que o período seja relativamente curto, minimizando as perdas por respiração, fermentação etc.

Para manter inalteradas amostras de forragens verdes, pode-se também fazer sua desidratação (pré-secagem). Isso é útil nas fazendas que não dispõem de refrigeração, ou então que pretendem juntar várias amostras das forragens ali produzidas durante um certo período, para enviar ao laboratório todas elas, a serem analisadas simultaneamente, em conjunto.

Na pré-secagem, é necessário anotar a perda de água da amostra para que seja possível, após receber os resultados do laboratório, extrapolá-los para a base “como oferecido” (a condição original de umidade, em que o alimento é naturalmente consumido pelos animais).

A desidratação é realizada submetendo a amostra a uma fonte de calor, que pode ser o próprio sol, uma lâmpada infra-vermelho, um forno de microondas, um formo caseiro ou, de preferência, uma estufa a 65oC, com circulação de ar. Em 48 hs nessa condição de desidratação “em baixa temperatura”, a amostra alcança cerca de 80% de MS, que é o suficiente para preservá-la sem alterações pelo tempo necessário até a sua análise. O peso da amostra antes e depois da desidratação deve ser controlado com uma balança de precisão. Há no mercado um “determinador de umidade” específico, que consiste de uma balança já acoplada a lâmpadas infra-vermelho.

 

Quando se usa uma estufa, o procedimento é o seguinte:

1) picar grosseiramente a forragem recém-colhida, em pedaços de 2 a 5 cm. Homogeneizar bem o material picado e pesar 1 kg, a ser colocado em uma camada fina, numa bandeja, a qual é levada à estufa. A quantidade exata (com precisão de gramas ou decigramas) de material verde que vai à estufa é o “peso verde”.

2) após 48 hs na estufa, retirar a bandeja, deixar esfriar e pesar novamente. Esse é o “peso pré-seco”. A amostra pré-secada (também chamada “amostra parcialmente seca”) é aquela a ser enviada para o laboratório, para as demais análises.

3) cálculo da MS parcial: 

MS parcial % = 100 - (peso verde - peso pré-seco)x 100

                                    peso verde 

4) A amostra pré-secada ainda contém uma certa quantidade de água, a qual só será completamente extraída no laboratório, quando o material for aquecido em uma estufa a alta temperatura (105oC). Com esse último resultado, pode-se então calcular a MS absoluta da forragem amostrada. O teor de MS parcial da amostra pré-secada, determinado no item 3, deve ser multiplicado pelo seu conteúdo de MS informado pelo laboratório.

Por exemplo, na amostragem de um pasto de capim colonião obtém-se os seguintes dados:


a) peso verde = 0,999 kg

b) peso pré-seco = 0,312 kg

c) o laboratório informa que a amostra pré-secada, como analisada, apresentou 80,13% de MS. 

MS parcial = 100 - (0,999 - 0,312) x 100 = 31,23%

                                 0,999


MS absoluta = 31,23 x 80,13% = 25,03%

 

Isso significa que 100 kg do capim colonião “como oferecido” contêm, de fato, 25,03 kg de MS. O restante é água.

 Como extrapolar outros resultados da análise bromatológica para a base “como oferecido”:


a) O laboratório geralmente informa a composição bromatológica com base na matéria seca absoluta ("na base seca" – na MS).

Para converter os dados na base seca para a base natural (MN ou "como "oferecido"), basta multiplicar os resultados informados pelo laboratório pelo teor de MS absoluta da amostra.

 

Composição bromatológica do

capim colonião, na base seca - MS (%)

 

Teor de MS

da amostra = 25,03%

 
Composição na base "como oferecido" (%)
PB =
8,50
x
0,2503
=
2,13
FB =
38,05
x
0,2503
=
9,52
EE =
4,13
x
0,2503
=
1,03
ENN =
43,27
x
0,2503
=
10,83
Ca =
0,38
x
0,2503
=
0,10
P =
0,20
x
0,2503
=
0,05
outros minerais =
6,17
x
0,2503
=
1,54

 

b) se o laboratório informar os resultados na base “como analisado” (isto é, com base na amostra pré-secada), a extrapolação para a base “como oferecido” é obtida simplesmente multiplicando-se os resultados do laboratório pela MS parcial:

nutriente

composição na amostra "como analisada" (%)
 

MS parcial

(31,23 %)1

 
Composição do alimento "como oferecido" (%)
PB =
6,82
x
0,3123
=
2,13
FB =
30,48
x
0,3123
=
9,52
EE =
3,30
x
0,3123
=
1,03
ENN =
34,68
x
0,3123
=
10,83
Ca =
0,32
x
0,3123
=
0,10
P =
0,16
x
0,3123
=
0,05
outros minerais =
6,17
x
0,3123
=
1,54

 

 1. Observe que a notação de um valor em porcentual pode ser escrita e utilizada de diversas formas, tais como:

                      trinta e dois porcento = 32%= 32/100= 0,32


c) a interpretação dos resultados obtidos tanto em a como em b é a seguinte: cada 100 kg de capim colonião, no estado em que a forragem é efetivamente consumida pelo gado, fornecerão 2,13 kg de PB (proteína bruta); 9,52 kg de FB (fibra bruta); 1,03 kg de EE (extrato etéreo – gordura), 10,83 kg de ENN (extrativos não-nitrogenados – amido e açúcares), 100 g de Ca (cálcio) e 50 g de P (fósforo). 

Nas forragens verdes que se encontram no mesmo estágio vegetativo, a composição da MS é relativamente constante, mas o teor de MS pode apresentar grande variação diária, devido aos fatores climáticos. Portanto, quando se dispõe de uma Tabela que informa a composição média na base seca, basta multiplicar tais valores pelo teor de MS da forragem no momento em que é consumida pelos animais para estimar, com alguma confiança, sua composição "in natura" (na MN).

Assim, é recomendável controlar o teor de MS dos diversos alimentos empregados na propriedade rural, especialmente das forragens verdes. Se não for possível determinar a MS absoluta, a MS parcial já dará um bom indício. Se ainda assim não houver como fazer tal determinação, pode-se também recorrer às Tabelas, que igualmente reportam o valor médio de MS dos principais alimentos. Porém, esse valor médio de MS encontrado nas Tabelas geralmente apresenta elevado coeficiente de variação, devendo portanto ser considerado com reserva.

Exemplo de aplicação: as Tabelas mencionam que silagem de milho contém 7,5% de PB na MS e 31% de MS, em média. Estime o teor protéico, na MN, de dois silos de uma determinada propriedade, os quais se apresentam com 29% e 35% de MS, respectivamente. Se são fornecidos 20 kg de silagem/animal/dia, qual é a quantidade estimada de proteína consumida através da silagem?

 
Respostas:
 

% PB

na MS

 
% de MS
 
% PB na MN
Estimativa do consumo de proteína
dados tabulares
7,5
x
31
=
2,32
464 g PB/animal/dia
silo nº 1
?
x
29
=
2,18
436 g PB/animal/dia
silo nº 2
?
x
35
=
2,62
524 g PB/animal/dia

 

A conversão da base “como oferecido” para a base seca é muito comum quando se pretende diagnosticar o nível nutricional de uma categoria do rebanho. Por exemplo, deseja-se avaliar o plano alimentar de um lote de bovinos confinados cuja dieta é constituída de:

 

Ingrediente
Quantidade "como oferecido" (Kg/cab/dia)
teor de MS no alimento original (%)
silagem de milho
12,660
32,0
palha de arroz
0,680
92,0
torta de algodão
1,830
91,0
farelo de trigo
1,870
89,0
uréia
0,050
100,0
sal mineral
0,050
90,0

 

Para estimar a quantidade de MS contida na ração, multiplica-se a quantidade consumida de cada ingrediente pelo respectivo teor de MS original:

silagem de milho
=
12,660
x
0,32
=
4,051 kg MS
palha de arroz
=
0,680
x
0,92
=
0,626 kg MS
torta de algodão
=
1,830
x
0,91
=
1,665 kg MS
farelo de trigo
=
1,870
x
0,89
=
1,664 kg MS
uréia
=
0,050
x
1,00
=
0,050 kg MS
sal mineral
=
0,050
x
0,90
=
0,045 kg MS
totais
=
17,140 kg de MN
 
=
8,101kg de MS

 

Conclui-se que os 17,140 kg de alimento “como oferecido”/cab/dia equivalem a 8,101 kg MS/cab/dia. A seguir, para se apurar a quantidade consumida dos outros nutrientes (caso não se disponha de dados próprios dos alimentos utilizados), consulta-se uma Tabela de composição de alimentos que contenha uma estimativa média da proporção dos demais nutrientes naqueles alimentos:

 

Tabela de composição de alimentos: 

Ingredientes Composição em 100% de MS (livre de água)
PB (%) EM (Mcal/kg) Ca (g/kg) P (g/kg)
silagem de milho
7,8
2,48
3,6
2,2
palha de arroz
4,2
1,62
0,1
0,1
torta de algodão
45,7
2,51
1,6
12,1
farelo de trigo
18,0
2,56
1,6
13,9
uréia
262,0
0
0
0
sal comum
0
0
0
0
Fonte: NRC (1984)

 

As quantidades dos demais nutrientes na dieta são obtidas multiplicando-se a quantidade de MS de cada alimento pelos teores correspondentes:

Ingredientes

Kg de

MS

Quantidade de nutrientes da dieta
PB (kg)
EM (Mcal)
Ca (g) P(g)
silagem de milho
4,051
0,316
10,050
14,58 8,90
palha de arroz
0,626
0,029
1,100
0,07 0,07
torta de algodão
1,665
0,761
4,180
2,66 20,15
farelo de trigo
1,664
0,300
4,260
2,66 23,13
uréia
0,005
0,131
0
0 0
sal comum
0,045
0
0
0 0
 
8,101
1,537
19,590
19,97 52,25

 

Finalmente, para se saber se a dieta está balanceada, confronta-se as quantidades de nutrientes consumidos com os requisitos nutricionais daquela categoria animal. Por exemplo, o NRC considera que bois com 300 kg de peso vivo (PV), ganhando 0,900 kg de PV/cab/dia, necessitam consumir diariamente 8,1 kg de MS; 0,810 kg de PB; 19,5 Mcal de EM; 22 g de cálcio e 19 g de fósforo. Então, no presente caso, conclui-se que o lote em questão está recebendo uma dieta balanceada em MS, energia e cálcio, e que está havendo um suprimento excessivo (superávit) de proteína e de fósforo.

Uma recomendação possível nesse exemplo seria substituir as fontes protéicas da dieta (uréia e torta de algodão) por concentrados energéticos, que forneceriam a mesma quantidade de MS e energia, ao mesmo tempo que menos proteína. Se continuar ocorrendo um superávit de fósforo mesmo após ajustar a proteína, deve-se ao menos acrescentar uma fonte de cálcio, de forma que a relação Ca:P aproxime-se de um nível apropriado (relação de 1:1, ou superior em Ca).

 

Conversão da base seca para a base “como oferecido”

O passo final do balanceamento de uma ração consiste em converter as quantidades determinadas de MS de cada alimento para a base natural, isto é, aquela em que o alimento se encontra disponível para o animal. Isto se obtém mediante regras-de-três, depois de se apurar o teor de MS existente no alimento como é oferecido. Por exemplo, se o balanceamento determina que 4 kg de MS sejam fornecidos por uma dada silagem, e esse alimento se apresenta com apenas 27% de MS, então o animal deverá consumir 14,8 kg de silagem in natura: 

100 kg in natura _______ 27 kg de MS

X kg __________________ 4 kg de MS

 

              x= (4 x 100) / 27
              x = 14,8 Kg MN

 Caso se dispusesse de uma silagem de melhor qualidade, com 33% de MS, por exemplo, então seriam necessários somente 12,1 kg MN.