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Apaer realiza 4.ª edição do Seminário Paulista de Extensão Rural


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Com o tema “A extensão rural em tempos de crise”, a Associação Paulista de Extensão Rural (Apaer) trouxe para a mesa de debates nos dias 25 e 26 de outubro, no auditório da CATI em Campinas, os desafios e as perspectivas para a extensão rural e a agricultura familiar diante das transformações políticas, econômicas e sociais da atualidade. O evento contou com a participação de mais de 120 extensionistas e profissionais de mais de 10 organizações ligadas ao segmento, de São Paulo e de outros estados.

O presidente da Apaer abriu o Seminário colocando para a discussão, os principais desafios para a extensão rural e a agricultura familiar no momento atual. “A extensão rural é um serviço essencial para o Brasil e a sua realização pelo Estado, de forma ampla e gratuita, é fundamental para o desenvolvimento econômico e social de milhões de famílias rurais. Entre os desafios da extensão rural hoje, estão a efetivação do trabalho diante de recursos orçamentários reduzidos, a falta de reconhecimento da sociedade urbana para valorização do trabalho extensionista, a manutenção das metodologias de extensão de construção do conhecimento de forma participativa com os produtores, o trabalho em redes de cooperação e o estabelecimento de prioridades de atuação diante das demandas da agricultura familiar, entre as quais estão a falta de mão de obra qualificada, o acesso às políticas públicas, o êxodo rural dos jovens e a pouca qualidade da gestão das organizações rurais”, salientou Abelardo.

Presente na solenidade de abertura, o secretário de Agricultura e Abastecimento, Arnaldo Jardim, frisou a importância da extensão rural para o fortalecimento da agricultura familiar e os trabalhos que têm sido realizados em São Paulo para este fim. “O Seminário foi muito importante pois, neste momento em que uma realidade de crise se impõe, é preciso repensar caminhos para lidar com a escassez de recursos, reformular ações e parcerias, concentrar esforços para seguir adiante. Temos um desafio de neste momento implementar novas tecnologias e parcerias, para manter a diversidade de culturas e os fatores que permitam que o agricultor familiar agregue valor à sua produção e propriedade. Entre iniciativas que são instrumentos para isso, temos o Microbacias II, um Projeto como nunca houve na história, que tem estimulado e fortalecido mais de 300 organizações e que tem transformado a vida de milhares de famílias com agregação de valor à produção, com um caráter emancipador dos produtores; o Programa de Sanidade em Agricultura Familiar (Prosaf), como um instrumento de defesa agropecuária; o Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista (Feap)  que fortalece o crédito para a agricultura familiar, e outras iniciativas importantes, como o Levantamento Censitário das Unidades de Produção Agropecuária (LUPA), na esteira do qual será implementado o Programa de Regularização Ambiental”.

O secretário apontou, ainda, algumas diretrizes que devem ser incluídas nos debates, para que a extensão rural seja fortalecida, no momento atual do País. “Em momentos como este, cresce a necessidade de se utilizar os instrumentos de rede e consolidar parcerias, pois a extensão vem sofrendo mudanças ao longo dos anos, com um quadro menor de funcionários para realizar os trabalhos de assistência direta nas propriedades. Por isso, um dos caminhos é justamente o fortalecimento das organizações rurais, como associações e cooperativas e, por outro lado, a utilização de instrumentos remotos de transmissão do conhecimento. Acredito que, neste Seminário surgirão boas ideias e propostas”.



Programação trouxe um debate plural e abrangente

O tema principal foi amplamente debatido em mesas e painéis, nos quais as discussões versaram sobre os desafios da extensão diante da crise, o papel das instituições de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) e as metodologias e as políticas públicas para a agricultura familiar. Os questionamentos foram diversos: caminhos e perspectivas para a Ater no Brasil; visões de Ater a partir do Estado, da sociedade civil e de entidades ligadas ao segmento; riscos da crise para manutenção de políticas públicas para a extensão rural e a agricultura familiar; crise e ideologia: a extensão pode voltar a ser difusionista, sem a participação efetiva dos agricultores?; formação e capacitação dos extensionistas; redução dos quadro de funcionários e dos orçamentos para a agricultura familiar e Ater. Estes foram alguns dos assuntos levantados nas discussões.

Os desafios da extensão foram o foco do debate da mesa principal, da qual particpou o coordenador da CATI, João Brunelli Júnior. “Esse seminário veio ao encontro da discussão do papel do extensionista diante da crise, que nos está proposta. Em momentos de crise, é necessário ter planejamento, acompanhar mais de perto as ações desenvolvidas, firmar parcerias, discutir estratégias, valorizando os caminhos para que a agricultura familiar sofra, o menos possível, os impactos de crises políticas e econômicas. Como instituição, é preciso sempre pensar e repensar nosso papel, refletir sobre a nossa missão como servidores públicos e a nossa contribuição para a sociedade. Se cada extensionista pensar dessa forma, no contexto de um projeto estruturado, todos ganham. Com isso, também será possível dar respostas aos desafios propostos e ser agentes no processo de desenvolvimento sustentável, estabelecendo o protagonismo para as organizações rurais”, falou o coordenador, destacando o Projeto Microbacias II, executado pela instituição, que tem sido um instrumento de emancipação e empoderamento para as associações e cooperativas de agricultores familiares, com agregação de renda e ampliação de produtividade para que essas organizações possam se inserir no mercado”.  

Para o diretor de políticas de desenvolvimento da Fundação do Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), Marco Antonio Silva, “Este não é um tema fácil, mas o debate é fundamental para transpor a crise e promover a manutenção da assistência técnica irrestrita, integral e gratuita, que o objetivo da nossa Fundação. É preciso reconhecer que não foram os agricultores que deram causa à crise, mas é responsabilidade nossa, do governo junto com eles, buscar caminhos para avançar. Como Fundação, temos fortalecido as parcerias com outras secretarias e entidades, colocando em prática diversas iniciativas para dar resposta aos desafios que estão propostos à extensão rural, como a geração de renda e manutenção dos jovens no campo”.


Enfocando o tema principal, alguns debatedores externaram suas preocupações e fizeram considerações sobre o momento atual da extensão rural e da agricultura familiar. Um deles foi Paulo Guilherme Cabral, consultor e ex-presidente da Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater). “Desde a década de 1990, a Ater vem se enfraquecendo no Brasil, período em que tivemos a extinção da Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (Embrater). Com a criação da Anater, se pretendia melhorar a qualidade do serviço de Ater e apoiar mais os agricultores familiares, mas diante do cenário atual existem incertezas de como as ações serão realizadas. Entendo que, neste momento, as políticas públicas que atendem a agricultura familiar e apoiam o desenvolvimento rural sustentável, precisam estar evidentes para a sociedade, então a mobilização das organizações da agricultura familiar é a chave para esse processo de elucidação de tornar mais claro para a sociedade que nós precisamos apoiar as ações de Ater, pois ela contribui para a produção de alimentos em quantidade e qualidade para toda a população”, considerou Paulo.

Na mesma linha de pensamento opinou Carlos José de Carvalho, presidente da Faser, que representa trabalhadores da extensão rural de 28 entidades filiadas no Brasil. “Há bastante tempo temos discutido o processo de Ater no Brasil; recentemente estivemos em um congresso nacional justamente com esse foco. O cenário atual nos traz muitas preocupações, por isso a nossa expectativa é ampliar o debate em todas as instâncias: no Congresso Nacional, nos movimentos sociais, na sociedade civil como um todo, mostrando a importância da agricultura familiar e da extensão rural. Nesse quarto seminário, nosso objetivo foi elencar um conjunto de propostas e estratégias para garantir o máximo de políticas públicas que já foram conquistadas”.

Para os participantes, os debates foram francos e enriquecedores. Segundo Rolando Salomão, extensionista da CATI Regional Barretos, o Seminário foi fundamental para uma reflexão sobre as ações de suporte ao agricultor familiar, diante de tantos desafios propostos. “Para nós, que estamos na linha de frente, trabalhando diretamente com os produtores, consideramos que este debate foi uma oportunidade enriquecedora, pois a pluralidade das discussões fez muita diferença. Os temas nos fazem refletir sobre as nossas ações junto aos produtores e a nossa postura neste momento de crise, nos mostrando que não podemos deixar de lado os princípios norteadores de uma Ater emancipadora. A reflexão nos fez avaliar como continuar o nosso trabalho diante desse cenário atual, mantendo a qualidade e o objetivo de fortalecer o empoderamento dos agricultores familiares, para que eles possam buscar novos caminhos”, ressaltou Rolando.

Márcia Regina Andrade, analista de desenvolvimento agrário do Itesp, reforçou a opinião do extensionista da CATI. “Nos últimos anos, as metodologias adotadas nas ações de Ater no Brasil tiveram um caráter emancipador para os agricultores familiares. Na minha opinião, o extensionista que percorreu esse caminho de atuação transformadora não voltará atrás.  Esse encontro mostrou a decisão de extensionistas de fazer o melhor para os agricultores familiares, tendo como base os conteúdos do Paulo Freire, mesmo diante do quadro de crise política e econômica instado no País. O Seminário foi um espaço de compartilhar e trocar experiências. Muitos se questionaram se valeria a pena discutir propostas em tempo de crise, mas, no final, o que vimos foi que surgiram inúmeras propostas e que muitos extensionistas estão dispostos a manter firme a Ater pública no Brasil”.


Encerrando a quarta edição do Seminário, o presidente da Apaer fez um balanço do evento. “Vivemos um momento de crise econômica, política e social, por isso a relevância de um debate com essa temática, pois existem várias ameaças ao serviço público de extensão rural em todo o Brasil. A mesa de debates estava bem plural, em sintonia com o nosso objetivo na Apaer, que é o de sempre trazer diferentes opiniões sobre o papel da Extensão rural e apresentar perspectivas. Tivemos representantes dos poderes executivo e Legislativo; de órgãos de extensão como CATI, Itesp e Incra; organizações não governamentais; institutos de pesquisa e ensino. Podemos dizer que nosso objetivo foi concretizado, pois debatemos e aprovamos em plenária importantes propostas e estratégias para o fortalecimento da Ater e da agricultura familiar, neste momento de reduções orçamentárias, limite de gastos para a União, os estados e os municípios. Levaremos, agora, essas propostas e estratégias para autoridades municipais, estaduais e federais dos órgãos ligados à agricultura, apontando caminhos para garantir um atendimento de qualidade para os agricultores familiares”, ponderou Abelardo.

O professor Carlos Rodrigues Brandão, da Universidade Estadual de Campinas, que trouxe ao Seminário uma importante reflexão sociológica e antropológica sobre a extensão rural, a qual levou os participantes a discutir seu papel como educadores e colaboradores na construção do conhecimento com os agricultores, deixou uma mensagem otimista para encerrar o debate. “Nós, pessoas da extensão rural e da educação, florescemos em época de crise. Ouvimos no debate que, muitas vezes, a crise significa a oportunidade da criação do novo. Então, neste momento, devemos pensar menos em crise, em mais no desafio de criar o novo”.

Participaram desse debate extensionistas de entidades como a CATI, a Fundação do Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), o Instituto de Cooperativismo e Associativismo (ICA), o Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), a Universidade Estadual Paulista (Unesp, campi Jaboticabal e Botucatu), a Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Puccamp), a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o Instituto BioSistêmico (IBS), a Federação Nacional dos Trabalhadores da Assistência Técnica, da Extensão Rural e do Setor Público Agrícola do Brasil (Faser), a Associação Terceira Via, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e as Frentes Parlamentares de Apoio à Extensão Rural e à Agricultura Familiar e Reforma Agrária.


Sessão de Pôsteres

Paralelamente aos debates, foi organizada uma mostra de mais de 40 pôsteres sobre trabalhos de campo, pesquisa e ensino. “A mostra foi uma oportunidade para os extensionistas apresentarem o alcance de seus trabalhos, principalmente para os poderes executivo e o legislativo que estavam representados aqui. A profissão extensionista e a agricultura, de modo geral, são pouco valorizadas pela sociedade urbana. Então, é preciso criar espaços para mostrar o nosso trabalho, pois só o que é conhecido é valorizado. Então, os mais de 40 trabalhos que foram expostos aqui, abordando a inclusão de agricultores familiares no mercado e questões ligadas ao meio ambiente, à organização rural e à transição agroecólogica, foi uma pequena mostra do muito que é feito no Brasil”, avaliou o presidente da Apaer.


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